Acredito que todos os profissionais da Educação devem pautar suas ações nos 5 pilares da pedagogia Freiriana. Na EAD, embora o contato direto com aluno seja limitado, não pode ser diferente. Em minha curta atuação como tutor de EAD - ministrei 9 disciplinas em um período de 2 anos -, tive a oportunidade de testemunhar de perto a difícil realidade da educação pública cearense, assim como o rápido crescimento do ensino semi-presencial nos últimos anos.
A esperança de ser um dos agentes no processo de melhoria da educação, assim como acreditar e ter fé que o seu trabalho pode modificar vidas e que os seus alunos são capazes de transformar as suas realidades a partir de uma educação de qualidade baseada no companheirismo, esforço, dedicação, disciplina e pensamento crítico, é o que move a educação e o que permite que a mesma perdure apesar do alto índice de evasão escolar, alunos com deficiências sérias em sua formação educacional, problemas estruturais e diversos outros problemas comumente encontrados nas escolas e universidades públicas do Brasil.
Devido a um histórico de descaso político com a educação pública, hoje nos deparamos com alunos com má formação educacional, professores mal remunerados, colégios e universidades com sérios problemas estruturais e uma massa de jovens, alunos e professores, desmotivados e desesperançosos com os rumos do país e de suas próprias vidas.
Como tutor de EAD, diversas vezes acompanhei alunos com graves problemas de aprendizados em matememática e português, laboratários de física inadequados, professores mal formados e sem compromisso, prédios com problemas estruturais e outras mazelas peculiares à nossa realidade. Acreditar no que faz, ter respeito e compromisso com os seus alunos, e agir com humildade, faz com que os seus alunos se aproximem de você e deixem transparecer suas dificuldades, medos e incertezas e lhe permite trabalhar com ênfase nas dificuldades da sua turma.
Gostaria de citar dois exemplos gratificantes que tive no ensino semi-presencial. Quando fui dar aula no pólo de Quiterianópolis, a quase totalidade da minha turma era formada por alunos de baixa renda e sem acesso a educação de qualidade nos ensinos báscicos, fundamental e médio. Pude perceber as dificuldades da turma logo no início, pois muitos não sabiam somar frações, calcular potências mesmo usando calculadora, fazer operações aritméticas básicas e cometiam muitos erros de português nas postagens nos fóruns. Percebendo as dificuldades, perguntei quais as dúvidas deles e comecei a fazer uma revisão básica de matemática. No entanto, muitos tinham vergonha de falar sobre suas deficiências e não participavam da aula por baixa estima e não acreditarem serem capazes de aprender. Foi aí que resolvi parar a aula e conversar sobre a realidade deles, sobre educação do país, política, perspectivas, desafios e superação. Coloquei-me a disposição e deixei claro que acreditava na capacidade e superação deles. Deixei claro que a diferença do tutor(eu) para eles era somente de alguns anos de faculdade a mais, mas que num futuro breve eles estariam no meu lugar de tutor dando continuidade ao processo educacional. Disse que o meu objetivo é que eles fossem professores e alunos bem melhores do que fui e sou e que acreditava e trabalhava para que isso se tornasse realidade. Claro que com essa conversa não consegui acabar com todas as dificuldades dos meus alunos, mas consegui injetar uma boa dose de ânimo, empolgação e de auto-estima. Tive a oportunidade de trabalhar com a mesma turma um semestre depois pude ver melhoras na matemática, na escrita, e principalmente na mentalidade da turma.
Um outro momento gratificante, foi quando trabalhei no pólo de Camocim. Rapidamente me aproximei da turma e tive uma relação de professor e amigo dos meus alunos. Isso facilitou demais o meu trabalho, pois os alunos se sentiam a vontade em falar sobre as suas dúvidas e se empenharam ao máximo na disciplina. Tive contato mais próximo com dois alunos. Um deles tinha sido cortador de cana até os 16 anos, e o outro era filho de pescador. Os dois eram ótimos alunos, esforçados e inteligentes, faltando apenas um suporte científico formal. Após as aulas, passava um tempo conversando sobre Física, pesca e outras coisas com os dois. Dei dois livros de Física e umas dicas aos dois sobre faculdade, mestrado e alguns experimentos de Física. Espero ter a oportunidade de trabalhar com eles novamente!
Acredito que, em alguma instância, o que move essa roda gigante, chamada educação, de altos e baixos, alegrias e frustrações, é o amor. Esse amor é o que nos permite sonhar com uma educação de qualidade na nossa sociedade tão egoísta, corrupta, doente e com um panorama educacional tão desolador.
Abraço,
Pablo
Parabéns pelo sua atitude. Atitude esta, que levantou a autoestima desses alunos e que hoje, eles veem o curso, com certeza, com outros horizontes.
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